O regresso de um nome como Prelude traz logo duas perguntas ao de cima: vai ser fiel à fórmula original e, sobretudo, vai resistir à tentação de virar mais um SUV?
Depois de 20 anos fora de cena, a Honda respondeu de forma inesperada - o Prelude está mesmo de volta e, para surpresa de muitos, não se transformou num SUV elétrico.
É inevitável. Quando a Honda recupera um nome com o peso histórico de Prelude, as comparações com o Civic Type R aparecem de imediato. Até porque, numa altura em que os hot hatch parecem estar a desaparecer, a Honda continua a saber fazer essa receita como poucas.
E os primeiros sinais só alimentaram essa ideia: quem viu o protótipo do Honda Prelude dificilmente não imaginou ali o 2,0 litros turbo de 329 cv do Type R. Até porque o Prelude acaba por ser, em muitos aspetos, uma espécie de Civic em formato coupé.
Mas a Honda optou por um caminho mais conservador e equipou-o com o mesmo sistema híbrido do Civic e do ZR-V. Foi a decisão certa? Fui até Nice para tirar isso a limpo. Vejam o vídeo:
Nota 10 para a imagem
Para mim, o design exterior do Prelude está no ponto. Aceito que nem toda a gente concorde, mas parece-me que a equipa de design da Honda acertou em cheio nas proporções equilibradas e vestiu-as com linhas elegantes e muito fluídas.
Não encontramos aqui os exageros normalmente associados às propostas mais desportivas, seja em enormes entradas de ar nos para-choques ou num spoiler traseiro imponente.
O Prelude foge disso tudo. Apresenta superfícies limpas, uma linha de ombros que alarga na traseira e um tejadilho baixo - algo que, para mim, é praticamente obrigatório num coupé. Há um custo a pagar, claro, mas já lá vamos.
Interior sóbrio
Por dentro, a Honda foi menos ousada e manteve quase intacta a solução do Civic. Mas isso não é propriamente um problema: o Civic tem um dos melhores habitáculos do segmento.
Não há espaço para enfeites sem utilidade, jogos de luz espalhafatosos ou ecrãs que pareçam saídos de uma sala de cinema. Em vez disso, o interior do Prelude aposta no minimalismo e numa sobriedade bem conseguida.
Nem o painel de instrumentos digital nem o ecrã multimédia impressionam pelo grafismo mais moderno, mas compensam com uma leitura muito fácil - para muita gente, é isso que conta.
Também deixo uma nota positiva para a escolha dos materiais e para a qualidade de montagem. E, sendo esta uma proposta de pedigree mais desportivo, é impossível não dar destaque aos bancos e, por arrasto, à posição de condução.
A Honda teve o cuidado de desenvolver dois bancos diferentes, um para o condutor e outro para o passageiro. Se o do passageiro é mais largo e macio, o do condutor é mais firme e oferece melhor apoio lateral. São estes pormenores que fazem a diferença.
Mas há um problema
Não dá para contornar o elefante na sala: o espaço nos lugares traseiros. A Honda apresenta-o como um coupé 2+2, mas dificilmente vão encontrar grande utilidade para aqueles lugares - a não ser, na prática, para transportar crianças.
E nem é tanto uma questão de espaço para os pés ou para os joelhos, mas sim de espaço para a cabeça. Ao ponto de eu achar que a Honda podia ter ido mais longe: eliminar por completo os lugares traseiros e, com isso, encurtar o chassis.
Onde não há nada a apontar é na bagageira que, segundo a marca nipónica, foi pensada para levar dois sacos de golfe ou um jogo de quatro pneus.
VTEC? Não…
Vamos ao tema que mais divide opiniões no Prelude: o motor. Se estavam à espera de abrir o capô e encontrar o 2,0 litros, quatro cilindros, VTEC e turbo com 329 cv do Civic Type R, esqueçam.
Como disse no início, a Honda foi prudente e seguiu um rumo diferente. É verdade que as normas de emissões estão cada vez mais apertadas, mas a Mazda continua a vender o MX-5 com motor 2,0 litros sem eletrificação, tal como a Toyota faz com o GR Supra, que até oferece uma opção de seis cilindros e 3,0 litros.
Mas isso, por si só, dava outro artigo. Ou um Auto Rádio (quem sabe!). Tenho de admitir que, quando soube que o Prelude iria usar o sistema híbrido do Civic e do ZR-V, fiquei um pouco desiludido.
Por outro lado, rapidamente me ocorreu: ao menos a Honda não vai usar este nome para batizar um crossover ou um SUV elétrico. E dar o benefício da dúvida aos engenheiros japoneses era o mínimo. A história, afinal, está do lado deles.
Complexo? Nem por isso
Com tudo isto, estava ansioso por conduzir o modelo e perceber se este híbrido fazia justiça a um nome tão marcante. Durante muito tempo, o Prelude foi o porta-estandarte tecnológico da Honda.
Não precisei de muitos quilómetros para perceber que este sistema híbrido está longe de ser um entrave. No papel, o e:HEV parece algo complexo, porque o motor 2,0 litros e quatro cilindros (ciclo Atkinson) só passa a mover as rodas a velocidades mais altas, em autoestrada.
É nesse cenário que a Honda entende que o motor a combustão - com 143 cv e 186 Nm - é mais eficiente. Em todos os outros contextos, o motor a gasolina funciona essencialmente como gerador para carregar uma pequena bateria (1,05 kWh) que alimenta um motor elétrico de tração.
Esse motor elétrico debita 184 cv e 315 Nm de binário máximo e é ele que “anima” o Prelude na maior parte do tempo, permitindo acelerar dos 0 aos 100 km/h em 8,2 s e atingir os… 188 km/h de velocidade máxima.
Em ritmos mais rápidos, não senti falta de potência. Mas nos arranques, à saída de algumas curvas e em ultrapassagens, dei por mim a desejar que a Honda tivesse extraído mais 20 ou 30 cv deste motor elétrico - como no Prelude norte-americano, que anuncia 203 cv.
Essa é a parte menos boa. A boa é que o funcionamento do híbrido é sempre muito agradável: tudo acontece de forma mais progressiva e, acima de tudo, somos recompensados com consumos muito baixos. Terminei este primeiro contacto com uma média de 6,2 l/100 km, mesmo tendo feito autoestrada.
Desportivo? Não, GT…
A posição de condução é irrepreensível, tal como o tato de todos os comandos (em especial o volante e o pedal do travão). E o comportamento em estradas sinuosas é bem mais envolvente do que eu antecipava. Mas agora que conheço alguns dos “truques” do Prelude, era de esperar.
Neste modelo, a Honda foi buscar algumas das melhores soluções “cá de casa” e recorreu à prateleira de componentes do Civic Type R.
A suspensão adaptativa, por exemplo, foi «roubada» ao hot hatch japonês, ainda que aqui tenha um acerto mais suave. E o mesmo se aplica ao sistema de travagem com pinças Brembo e a muitas das soluções do chassis.
Como tantas vezes se diz, a receita pode ser excelente, mas sem bons ingredientes o resultado final nunca fica à altura. E aqui os ingredientes são, sem dúvida, de qualidade.
Mas tudo depende da expectativa com que olhamos para ele. Se o encararmos como um desportivo - o que, a meu ver, é um erro - rapidamente se percebe que a suspensão podia ser mais firme e que o motor beneficiava de mais uns «pózinhos». Se, pelo contrário, o virmos como um GT, então afirma-se como uma proposta de valor muito clara.
Esse é, para mim, o grande trunfo do Prelude: é equilibrado, suficientemente envolvente e, acima de tudo, versátil. É isso que mais o separa do Civic Type R. O Prelude é muito mais fácil de usar, mais simples de explorar no dia a dia e com uma faixa de utilização bem mais ampla.
E quando aparece a estrada certa, desde que não o queiram conduzir de «faca nos dentes», dificilmente vão sair desiludidos. Nem tanto pelo sistema S+ Shift, que simula passagens de caixa e que a Honda apresenta como uma ligação extra entre carro e condutor, mas sobretudo pela precisão dos comandos e pelo acerto do chassis, que está a um nível muito bom.
Preço pode ser o maior problema
Os preços para o mercado português ainda não estão fechados, mas tendo em conta que o Civic com a mesma motorização começa nos 45 mil euros, é fácil prever que o Prelude dificilmente custará menos de 60 mil euros.
Se assim for, antecipo que este venha a ser um dos maiores entraves à compra do modelo. Parece-me um valor elevado para aquilo que este coupé entrega. E por esse preço há propostas muito interessantes no mercado de usados. Uma delas chama-se, precisamente, Honda Civic Type R. Podem recordá-lo aqui, no «nosso» Circuito do Estoril:
Mas isto é só uma parte do problema. Importa perceber o que empurra o preço para estes valores. E a principal “culpada” é a fiscalidade portuguesa, que continua a penalizar em demasia a cilindrada no ISV, em vez de dar mais peso às emissões.
Porque, no fim de contas, o Prelude consegue ser tão divertido quanto eficiente. Essa é a verdadeira vantagem deste sistema híbrido. Não tem a mesma descarga de adrenalina de um Type R, é certo, mas é mais versátil, mais fácil de conduzir e muito mais poupado.
Dito isto, compreendo que, para muitos, este não seja o regresso ideal de um nome tão emblemático. Faltam-lhe elementos diferenciadores que nos façam esquecer que, no fundo, é “apenas” um Civic coupé.
Por outro lado, tenho de reconhecer que a escolha deste híbrido o torna uma proposta mais utilizável em qualquer cenário. E que, sem ser um desportivo puro e duro, consegue proporcionar uma condução envolvente e entusiasmante.
E, claro, com raras exceções (nomeadamente BMW e Mercedes-Benz), é justo reconhecer a coragem que os construtores japoneses ainda vão mostrando ao lançar um tipo de carroçaria que caiu realmente em desuso: os coupés.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário