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Comprimido simples reduz apneia do sono de forma eficaz – Máscara perde exclusividade

Pessoa sentada na cama, segurando um comprimido, com máscara de oxigénio e água numa mesa à frente.

A apneia do sono é muitas vezes descrita como uma “doença de massas”, mas uma parte significativa dos doentes não se adapta à terapêutica padrão - a máscara de CPAP usada durante a noite. Um consórcio europeu de investigação acaba de apresentar um possível ponto de viragem: um fármaco há muito conhecido no tratamento da epilepsia reduziu quase para metade o número de pausas respiratórias numa Phase-2-Studie - apenas com um comprimido antes de deitar.

Contexto: o que torna a apneia obstrutiva do sono tão perigosa

Na apneia obstrutiva do sono, as vias aéreas superiores colapsam repetidamente durante o sono. Surgem pausas respiratórias que podem ultrapassar dez segundos e repetir-se dezenas ou centenas de vezes por noite.

As consequências vão do ressonar intenso e da sonolência diurna a riscos clínicos relevantes, como:

  • maior risco de hipertensão e arritmias cardíacas
  • probabilidade aumentada de enfarte do miocárdio e AVC
  • mais acidentes rodoviários por adormecimento ao volante (microssono)
  • pior controlo da glicemia em pessoas com diabetes

Muitos doentes passam anos sem suspeitar do problema, porque as pausas respiratórias são frequentemente notadas apenas pelo(a) companheiro(a). Quando alguém “normaliza” a exaustão e segue em frente, perde tempo valioso para iniciar um tratamento eficaz - com ou sem máscara.

Porque é que tantos doentes abandonam a máscara de CPAP

Até aqui, a CPAP-Therapie (Continuous Positive Airway Pressure) tem sido considerada o padrão de referência. Na prática, o doente usa todas as noites uma máscara através da qual é fornecido ar com pressão positiva, impedindo que a garganta colapse.

O problema é a adesão: cerca de um em cada dois doentes acaba por deixar o equipamento ao longo do primeiro ano. As razões mais comuns incluem:

  • marcas de pressão e irritação cutânea provocadas pela máscara
  • ruído associado ao dispositivo
  • sensação de aperto, claustrofobia ou pânico
  • perturbações do sono do parceiro
  • viagens e rotinas diárias mais complicadas

Muitos acabam num dilema pouco desejável: ou continuam a sofrer com a máscara, ou aceitam o risco de uma apneia do sono não tratada - com potenciais consequências que vão da hipertensão até ao enfarte.

O que a FLOW-Studie mostrou, de facto

Na FLOW-Studie, uma Phase-2-Studie europeia, investigadores avaliaram o Sulthiame em 298 adultos com apneia obstrutiva do sono moderada a grave. O tratamento decorreu durante 15 semanas.

Principais achados do estudo:

  • com doses elevadas de Sulthiame, o número de pausas respiratórias nocturnas diminuiu até 47%
  • a saturação de oxigénio no sangue melhorou de forma clara durante o sono
  • a maioria dos efeitos indesejáveis foi ligeira e reversível; os mais frequentes foram sensações anómalas como formigueiro (parestesias)

"Os dados sugerem que a apneia do sono não é apenas tratável de forma mecânica com um dispositivo, mas pode, pela primeira vez, ser influenciada de modo dirigido através de um medicamento."

Os resultados foram publicados na revista médica The Lancet, o que voltou a dar impulso ao debate sobre terapêuticas farmacológicas para a apneia do sono.

Como o Sulthiame actua no organismo na apneia do sono

O Sulthiame pertence ao grupo dos inibidores da anidrase carbónica (Carboanhydrase-Hemmer). Estes compostos interferem com a troca de gases - dióxido de carbono e oxigénio - e, por essa via, influenciam a regulação da respiração no cérebro.

De forma simplificada, o Sulthiame tende a “estabilizar” o sistema de controlo respiratório:

  • reduz a instabilidade do controlo ventilatório (o chamado “loop gain”)
  • assim, diminui o ciclo de sobe-e-desce entre hiperventilação e pausas respiratórias subsequentes
  • estudos anteriores indicaram ainda um aumento do tónus muscular nas vias aéreas superiores

Com isto, reduz-se a probabilidade de a região da garganta colapsar durante o sono e bloquear a passagem de ar. Os dados agora disponíveis indicam que, em parte dos doentes, este mecanismo pode ser suficiente para baixar de forma marcada o número de apneias.

"A investigação desloca o foco de “máquina contra mecânica” para “intervenções dirigidas no controlo da respiração e da musculatura”."

Limitações do fármaco: nem todas as causas ficam cobertas

A apneia do sono não resulta de um único “defeito”. Em termos gerais, especialistas distinguem quatro mecanismos fisiológicos principais:

  • controlo respiratório instável
  • tónus muscular reduzido na faringe
  • via aérea anatomicamente estreita
  • baixa capacidade de reacção do cérebro à queda de oxigénio

O Sulthiame actua sobretudo sobre a instabilidade do controlo respiratório; os restantes factores ficam, em grande medida, por abordar. Em estudos anteriores, mais curtos, observou-se uma redução das apneias, mas quase nenhuma alteração na sonolência diurna ou na qualidade de vida - possivelmente porque apenas uma parte da perturbação complexa é corrigida.

Além disso, a FLOW-Studie é uma Phase-2-Studie: serve principalmente para afinar doses e caracterizar tolerabilidade. Para uma autorização, são necessários ensaios de fase 3 maiores e mais longos, com desfechos bem definidos, como eventos cardiovasculares ou acidentes associados à sonolência.

Vários candidatos em comprimido estão a avançar

O Sulthiame não é o único nome a gerar expectativas. Em vários países, empresas e equipas de investigação estão a explorar diferentes “alvos” na apneia do sono.

AD109 (Apnimed): uma combinação para a musculatura da garganta

A empresa norte-americana Apnimed está a desenvolver o AD109, uma combinação de Aroxybutynin e Atomoxetin. Aqui, o foco está na musculatura: o objectivo é melhorar o controlo neuromuscular das vias aéreas superiores para que estas não relaxem nem colapsem durante o sono.

A Apnimed prevê apresentar, no início de 2026, um pedido de autorização junto da autoridade reguladora dos EUA, a FDA. Se o processo for bem-sucedido, os primeiros doentes nos Estados Unidos poderão ter acesso, em poucos anos, a uma alternativa em comprimido.

IHL-42X (Incannex Healthcare) e Tirzepatid (Zepbound): caminhos diferentes para o mesmo objectivo

Outro programa está em curso na Incannex Healthcare: o IHL-42X combina dois fármacos já conhecidos e também se encontra em fase 2. A meta é igualmente reduzir, de forma farmacológica, as pausas respiratórias nocturnas.

Entretanto, tem recebido especial atenção o Tirzepatid, mais conhecido pelo nome comercial Zepbound. O medicamento foi aprovado no final de 2024 nos EUA como o primeiro fármaco especificamente indicado para apneia obstrutiva do sono em doentes com obesidade. Neste caso, o benefício surge através da perda de peso: menos gordura na região da garganta e do abdómen reduz a sobrecarga das vias aéreas e melhora a respiração durante o sono.

"A direcção é clara: afastar-se de “uma terapêutica para todos” e avançar para combinações ajustadas de máscara, medicamentos, perda de peso e, por vezes, cirurgia."

Medicina do sono em transformação: Präzisionsmedizin em vez de solução única

Vários investigadores já falam numa espécie de Präzisionsmedizin aplicada ao sono. No futuro, um doente com apneia do sono poderá ser caracterizado primeiro com medições detalhadas: que mecanismos predominam, quão estável é a respiração, quão estreitas são as vias aéreas e como reage o cérebro?

A partir daí, poderão ser definidos planos terapêuticos individualizados, por exemplo:

  • doente com controlo respiratório muito oscilante: sobretudo estabilização farmacológica, como com Sulthiame
  • doente com colapso muscular marcado na faringe: combinação de um medicamento como AD109 e uma goteira de avanço mandibular
  • doente com obesidade acentuada: análogos GLP-1 ou GIP/GLP-1 como Tirzepatid mais CPAP
  • doente com maxilar muito estreito: medidas de cirurgia maxilofacial e, se necessário, medicação em baixa dose

Para muitas pessoas que até agora usam a máscara de CPAP com relutância, isto poderá significar menos pressão, menos máscara e mais opções. Ainda assim, é igualmente claro que os medicamentos, num horizonte próximo, não irão substituir por completo as máscaras - a tendência é que as complementem.

O que doentes e famílias devem saber já hoje

Quem vive com apneia do sono pode sentir-se encorajado com estes dados, mas não deve agir por impulso. O Sulthiame é conhecido como antiepiléptico, porém a utilização para apneia do sono continua a ser experimental. A automedicação é arriscada: dose, interacções e efeitos indesejáveis exigem vigilância clínica apertada.

Para quem está afectado, faz sentido uma conversa aberta com o médico assistente. Alguns pontos úteis:

  • Até que ponto a terapêutica actual com CPAP está a funcionar na prática?
  • Existem alternativas, como goteiras mandibulares ou programas de perda de peso?
  • Há possibilidade de participar em estudos sobre opções farmacológicas?
  • Que doenças associadas influenciam a escolha do tratamento?

Um aspecto frequentemente subestimado é o quotidiano: horários de sono regulares, evitar álcool ao fim da noite, deixar de fumar e perder peso podem reduzir a gravidade da apneia do sono. Estas medidas não são tão “espectaculares” como um novo comprimido, mas, ao longo de anos, têm um impacto relevante no coração e na circulação.

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