Em Lisboa, numa esplanada, uma amiga atira um elogio simples: “Hoje estás mesmo bem.” A outra baixa os olhos para a chávena, sorri de lado e sai-se com o clássico: “Qual quê… só não pareço tão cansada como de costume.” A conversa segue, mas fica aquela sensação de que algo ali não encaixou.
Toda a gente conhece este instante estranho: o elogio fica suspenso no ar, como se fosse uma bola que ninguém quer agarrar. Há quem brilhe quando é elogiado. Há quem encolha os ombros, desvalorize, faça uma piada. E há quem só ouça o “mas…” que nem chegou a ser dito.
O que muita gente subestima é isto: nesse micro-momento - alguém diz “Camisa gira!” e tu respondes - o teu auto-retrato aparece, por um segundo, em cima da mesa. Rápido, mas cristalino.
Como afastas elogios - e o que isso realmente mostra
Quando alguém te diz algo bom, dentro de ti arranca um guião bem treinado. Dizes: “Não foi nada.” Ou: “É da luz.” Ou mudas logo de assunto, como se o elogio fosse uma batata quente. Pessoas com uma autoimagem mais estável costumam parecer muito mais tranquilas aqui: acenam, dizem “Obrigado/a”, respiram - e deixam o momento existir.
Este pequeno vaivém revela o quão à vontade estás com reconhecimento. Não no sentido de “sou elogiado o tempo todo”, mas no sentido de “sou alguém que pode receber elogios”. Quem, lá no fundo, acredita que não é suficiente sente-se mais apanhado do que homenageado. Quase como se alguém tivesse descoberto um segredo: que tu próprio não te vês assim.
Em muitas conversas, as pessoas contam-me exatamente isto. Uma gestora de marketing que ouve “és tão simpática” ri-se e responde: “Sim, e ingénua também, já agora.” Um professor jovem que é elogiado por uma boa aula encontra logo cinco coisas que “ainda correram mal”. É um reflexo. Assim que surge apreço, o centro de controlo interno dispara: “Alarme, nós não correspondemos a essa imagem!” - e começa a contradição por dentro.
O modo como lidas com elogios diz muito mais sobre aquilo em que acreditas sobre ti - não sobre o que tentas mostrar aos outros.
Do ponto de vista psicológico, um elogio toca no teu autoconceito: a imagem interna que foste construindo sobre quem és. E essa imagem é surpreendentemente teimosa. Se, cá dentro, te consideras “mediano/a”, “complicado/a” ou “não suficientemente bonito/a”, o feedback positivo bate de frente com isso. Não encaixa no sistema. O cérebro adora consistência. Quando o elogio não combina com a tua autoimagem, deixa de soar a presente e passa a parecer uma interferência.
Sejamos honestos: ninguém passa todas as manhãs ao espelho a repetir afirmações motivacionais em loop. A maioria carrega frases antigas da infância, da escola, do primeiro amor. “Tu não és propriamente um/a galã.” “Não sejas convencido/a.” “Esforça-te mais.” Se estas frases ficaram bem fundas, cada elogio é comparado com elas - e muitas vezes é o elogio que perde.
De desvalorizar a aceitar: como treinar a tua autoimagem no dia a dia
Um começo surpreendentemente eficaz é este: sempre que receberes um elogio, trava-te por dois segundos por dentro. Sem piada, só uma pausa. Respira. E depois diz apenas uma palavra: “Obrigado/a.” Sem justificar, sem relativizar, sem devolver logo com “Tu também!”. Deixa o silêncio ficar ali um instante. Ao início, isto parece estranho, quase desconfortável. E é precisamente nesse desconforto que algo começa a mexer: estás a dar permissão ao teu sistema para que o reconhecimento não tenha de ser neutralizado imediatamente.
A seguir, podes fazer à noite uma espécie de “protocolo de elogios”. Escreve três situações em que alguém te disse ou mostrou algo positivo - mesmo que tenha sido indireto, por exemplo num olhar ou num gesto. E acrescenta, em cada uma: como reagi? Desviei, relativizei, apequenei? Este ritual demora cinco minutos. Mostra padrões que, durante o dia, passam depressa demais. Ao escrever, vês onde a tua autoimagem colide com a realidade com mais força.
Ponto central: não tens de começar a acreditar em todos os elogios de forma acrítica. Basta vê-los como uma fonte de informação. As pessoas devolvem-te um espelho de como apareces no mundo. Nem sempre perfeito, às vezes filtrado, às vezes com interesses pelo meio - mas, ainda assim, com um núcleo verdadeiro. Se, ao longo de semanas, surgirem mensagens parecidas - “pareces seguro/a”, “és empático/a”, “trazes calma” - vale a pena abanarem-se as ideias que tens guardadas sobre ti.
O erro mais comum neste tema: achar que tens de te “achar incrível” para poderes aceitar elogios. Essa exigência bloqueia. Podes receber um elogio mesmo que ainda não estejas lá. Podes dizer: “Obrigado/a, ainda estou a aprender a ver isso assim.” É honesto, vulnerável e, surpreendentemente, alivia.
Também existe o oposto: pessoas que recolhem cada elogio com fome, mas por dentro não guardam nada. Como um coador. Por fora parecem confiantes, publicam tudo nos stories, procuram likes sem parar. Por dentro há uma autoimagem que não acredita em quase nada disso. A longo prazo, isto cansa, porque precisas de cada vez mais confirmação para conseguires ficar tranquilo/a por um instante.
Muitos de nós foram educados a afastar elogios para “não ganhar a mania”. Quem, em criança, ouviu muito “Não digas obrigado, não é preciso”, aprendeu a ver o reconhecimento como algo óbvio - ou suspeito. Daí nasce um paradoxo: temos fome de ser vistos, mas quase não suportamos quando isso acontece. Uma saída suave: não lutar, observar. “Ah, aqui está outra vez o meu reflexo de minimizar tudo.” Só isso já cria algum espaço.
Uma terapeuta disse-me uma vez: “Mostra-me como alguém reage a um elogio honesto - e eu consigo dizer-te muito sobre a história dessa pessoa.”
Se queres lidar com elogios de forma mais consciente, ajuda uma checklist pequena e muito honesta:
- Com que frequência desvio um elogio com humor ou autoironia?
- Há áreas específicas (aparência, desempenho, caráter) em que o elogio me ativa mais?
- De quem consigo aceitar elogios - e de quem me soam logo a suspeito?
- Que frases antigas do meu passado aparecem quando alguém me elogia a sério?
- Que elogio dos últimos meses me tocou mesmo - e porquê precisamente esse?
O que o teu reflexo aos elogios revela sobre ti - e o que fazes com isso
No fim, isto não tem tanto a ver com boas maneiras, mas com proximidade contigo. A forma como recebes elogios mostra como falas contigo quando ninguém está a ouvir. Se desconfias de ti. Se te vendes em silêncio por menos do que vales. Ou se estás a aprender, devagar, a ver-te como alguém com luz e sombra - e ainda assim digno/a de carinho. Aceitar um elogio não é prova de vaidade; muitas vezes é um ato silencioso de autorrespeito.
Talvez, ao ler, reconheças algumas cenas. O desvalorizar. As piadas. O “não foi assim tão bom”. Isso não é um defeito - é uma pista. Um convite para não tratares a tua autoimagem como uma verdade fixa, mas como uma história antiga que pode ser reescrita. Não num grande drama, mas em instantes minúsculos: um “Obrigado/a” dito com presença. Um “Talvez uma parte seja verdade.” Um deixar ecoar mais um bocadinho.
Se te apetecer, podes fazer uma pequena experiência com amigos ou colegas: durante uma semana, dar elogios de propósito - e recebê-los. Sem cinismo, sem troca imediata. Observa como a atmosfera muda quando a apreciação já não é despachada com uma piada, mas suportada por uns segundos. Muitas vezes fica mais silencioso. Mais quente. Mais verdadeiro. E, às vezes, só aí percebes o quanto a tua autoimagem está atrás da forma como os outros já te veem.
| Ponto-chave | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| Reação a elogios como espelho | Afastar, relativizar ou aceitar mostra crenças inconscientes sobre o próprio valor | O leitor identifica padrões escondidos na autoimagem no dia a dia |
| Pequenos exercícios do quotidiano | Pausa curta, dizer só “Obrigado/a”, protocolo de elogios à noite | Ferramentas concretas para ajustar, com suavidade, a forma de lidar com reconhecimento |
| Reflexão em vez de auto-otimização | Ver elogios como pontos de dados, não como teste de amor-próprio | Reduzir a pressão e desenvolver um olhar mais realista e mais gentil sobre si |
FAQ:
- Porque me sinto tão desconfortável com elogios? Muitas vezes eles batem numa autoimagem interna menos simpática. Se te vês como “não suficiente”, o elogio soa a contradição e gera tensão em vez de alegria.
- Devo aceitar elogios mesmo quando não acredito neles? Sim - podes tratá-los como uma observação: “É assim que me estás a ver.” Não tens de os sentir de imediato para os receber com respeito.
- É arrogante aceitar elogios sem mais? Não. A arrogância aparece mais quando te colocas acima dos outros. Um simples “Obrigado/a” mostra mais serenidade do que superioridade.
- Como posso aprender a acreditar nos elogios que me fazem? Ajuda recolher feedback que se repete e ligá-lo a situações concretas: quando é que eu, de facto, agi como a pessoa descreveu?
- E se os elogios parecerem manipuladores? O teu instinto conta. Podes distinguir entre valorização honesta e graxa com segundas intenções - e deixar entrar, a sério, apenas a primeira.
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