Quem tem dificuldade em lidar com emoções acaba muitas vezes por dizer exatamente aquilo que faz os outros calarem-se por dentro. Neuropsicólogas e psicoterapeutas avisam: certas fórmulas feitas diminuem o valor do que se sente e, com o tempo, corroem a confiança, a proximidade e a autoestima.
Porque é tão difícil levar os sentimentos dos outros a sério
A maioria de nós não quer magoar ninguém. Ainda assim, falar de emoções pode ser cansativo, avassalador ou simplesmente desconfortável para muitas pessoas. Nesses momentos, recorremos a frases que parecem um atalho - mas que, na prática, desvalorizam o que a outra pessoa está a sentir.
A validação emocional significa: “O teu sentimento pode existir, mesmo que eu não o partilhe.”
Profissionais de psicoterapia sublinham que, quando alguém pode mostrar o que sente e percebe que isso é respeitado, sente-se mais seguro, mais ligado aos outros e mais livre nas relações. Quando, pelo contrário, as emoções são desautorizadas, acontece o oposto: vergonha, afastamento e lutas de poder.
Expressões típicas que tornam os sentimentos invisíveis
A neuropsicóloga Nawal Mustafa identifica várias expressões que surgem em muitas conversas - e que podem soar especialmente tóxicas quando alguém está a partilhar algo importante.
1. “Não faças assim” / “Estás a exagerar completamente”
Esta frase transmite a ideia de que o teu sentimento está errado ou é excessivo. A pessoa não ouve: “Estás magoado” - ouve antes: “Há algo de errado contigo.”
- retira à outra pessoa o direito de sentir aquilo que sente
- provoca vergonha e a sensação de ser “demasiado”
- faz com que, muitas vezes, as pessoas deixem de contar coisas da próxima vez
Seria mais útil dizer algo como: “Para mim, a situação parece diferente, mas vejo que isso te está a afetar bastante.”
2. “Não consegues simplesmente deixar isso para trás?”
A mensagem implícita é: “Isto já está a durar demasiado, resolve-te mais depressa, por favor.” Isso cria pressão e passa a ideia de que as emoções são um incómodo que deve desaparecer o quanto antes.
Mas as emoções não obedecem a calendários. Quem está triste, inseguro ou zangado precisa de espaço - não de uma ordem disfarçada para seguir em frente.
3. “Estás a pensar demasiado”
Claro que a ruminação pode ser angustiante. Mas, no instante em que alguém partilha uma preocupação, esta frase soa sobretudo a repreensão. O problema não diminui; além disso, a pessoa sente-se rotulada como “difícil”.
Quem reage assim, muitas vezes tenta travar a própria sensação de sobrecarga - e acaba, infelizmente, por travar também a conversa.
Uma alternativa mais cuidadosa seria: “Os teus pensamentos estão agora muito acelerados. Queres que tentemos perceber juntos o que te está a pesar mais?”
4. “Devias estar grato pelo que tens”
A gratidão é útil - como orientação interior, não como mordaça. Esta frase compara o sentimento atual com uma postura supostamente “correta” e gera culpa: “Não me posso queixar.”
Nas relações, isso pode soar duro. Quem responde assim está a dizer, na prática: “Não consigo aguentar a tua insatisfação” - em vez de escutar o que realmente está em causa.
5. “Nunca me ouves” - quando o foco muda de lado
Este clássico desloca logo a atenção: em vez de se continuar a falar da pessoa que acabou de partilhar algo doloroso, a conversa passa subitamente para as acusações do outro. O diálogo descamba então para uma disputa de poder.
Quem usa este tipo de frase sente-se muitas vezes invisível por sua vez - e reage por impulso, em vez de reconhecer primeiro o que o outro está a sentir.
De onde vem esta desvalorização emocional?
Segundo os especialistas, a desvalorização emocional nem sempre nasce de má-fé. Muitas vezes, estas frases funcionam como uma defesa inconsciente.
- Sobrecarga: as emoções do outro parecem demasiado intensas, complexas ou pesadas - então a pessoa fecha-se.
- Falta de modelos: quem cresceu quase sem conversas verdadeiras sobre sentimentos tende a ter mais dificuldade em fazê-lo depois.
- Vergonha e feridas antigas: quem se sente interiormente “insuficiente” costuma tolerar a proximidade apenas com distância.
Pessoas que mal conseguem suportar os próprios sentimentos desvalorizam frequentemente, quase automaticamente, as emoções alheias.
A psicoterapeuta Amy Lewis Bear explica que algumas pessoas carregam uma vergonha profunda e antiga. Têm medo de serem desmascaradas quando se mostram vulneráveis. Para manter essa fachada, tentam conservar o controlo - por exemplo, diminuindo os outros ou banalizando o que sentem.
O que a desvalorização emocional faz às relações
A longo prazo, raramente passa sem consequências. Quem ouve repetidamente que os seus sentimentos são “exagerados”, “desnecessários” ou “errados” acaba por mudar.
| Desvalorização repetida | Possíveis consequências |
|---|---|
| Os sentimentos são ridicularizados ou criticados | Recolhimento, menos abertura, distância interior |
| Os conflitos são varridos para debaixo do tapete | Ressentimento silencioso, relação com ar “frio” |
| A pessoa sente-se constantemente “demasiado sensível” | Autoestima mais baixa, mais dúvidas sobre si mesma |
Nas amizades e nas relações amorosas, o equilíbrio quebra-se: uma pessoa carrega o peso das emoções que não disse, enquanto a outra mantém aparentemente o controlo. Sobra muito pouco da verdadeira proximidade.
Como responder com respeito emocional
Ninguém reage sempre na perfeição. O que importa é saber se estamos dispostos a ouvir de forma diferente. Pequenas mudanças no modo de falar podem fazer uma grande diferença.
Alternativas concretas a frases que ferem
- em vez de “Estás a exagerar”: “Percebo que isto te esteja a tocar muito.”
- em vez de “Deixa lá isso”: “Queres explicar-me um pouco melhor o que é que torna isto tão difícil para ti?”
- em vez de “Pensas demasiado”: “Os teus pensamentos estão a girar muito. Qual é o núcleo da tua preocupação?”
- em vez de “Devias estar grato”: “Uma parte de ti sabe que há muita coisa a correr bem - e, ao mesmo tempo, isto agora parece-te errado, é isso?”
- em vez de “Nunca me ouves”, a meio da conversa: “Sinto que também precisava de espaço para o meu ponto de vista. Podemos terminar primeiro o teu assunto e depois ver o meu?”
Estas frases dão lugar ao sentimento sem o julgar. Mantêm a porta aberta - em vez de a fechar com estrondo.
Quando somos nós a desvalorizar os sentimentos dos outros
Muitas pessoas assustam-se ao perceber: “Eu uso estas frases constantemente.” Isso não tem de ser lido como uma sentença sobre o caráter; pode antes apontar para dificuldades próprias por resolver.
Perguntas úteis incluem:
- Que emoções dos outros me ativam mais - tristeza, raiva, impotência?
- Como era, na minha família, a forma de lidar com os sentimentos?
- O que é que me assusta quando alguém fica muito emocional?
Quem conhece melhor os seus limites e feridas responde com mais clareza - e precisa menos de desvalorizar os outros para se proteger.
Às vezes, basta nomear o padrão: “Estou a notar que me apetece afastar isto, porque me está a ultrapassar. Ainda assim, o teu sentimento é legítimo.” Esta frase junta honestidade e respeito.
Porque a linguagem emocional pode ser aprendida
Muita gente acredita que é simplesmente “pouco emocional” e que isso não muda. No entanto, lidar com sentimentos parece-se muito com aprender uma língua. Quem nunca a aprendeu fala aos tropeções - mas pode praticar.
Podem ajudar pequenos passos do dia a dia, por exemplo:
- perguntar uma vez por dia: “Como te estás a sentir - emocionalmente?” e ouvir mesmo a resposta
- dar nome aos próprios sentimentos, em vez de responder apenas “está tudo bem”
- nas discussões, fazer uma pequena pausa antes de sair a primeira frase defensiva
Reconhecer os sentimentos dos outros não significa concordar com tudo. É possível discordar com firmeza e, ao mesmo tempo, dizer: “Vejo que isto te magoou.” É precisamente esta combinação de clareza e respeito que faz as relações crescerem - e também alivia, de forma visível, a pressão interior de quem fala e de quem ouve.
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