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Choque após passeio na floresta: Por que a clássica coleira antipulgas já protege pouco os cães

Mulher coloca coleira num cão dourado ao ar livre, com comprimidos sobre tronco caído coberto de musgo.

Muitos tutores de cães entram tranquilos na primavera por caminhos de floresta e prados porque o seu companheiro de quatro patas usa uma coleira anti-carraças. A surpresa desagradável surge, muitas vezes, apenas em casa: apesar da coleira, lá está uma carraça no pelo - por vezes já agarrada à pele. O que parece um caso isolado tem, hoje, uma explicação bem concreta: está ligado a uma nova espécie de carraça e a condições climáticas que mudaram.

Quando a verificação de rotina depois do passeio se transforma num susto

A mão a percorrer o pelo… e de repente aparece “aquilo”

A cena é familiar para quase todos os donos: voltam do passeio na mata, passam rapidamente a mão pelo pelo, apalpam aqui e ali - “deve estar tudo bem, ele usa coleira”. E é precisamente aqui que mora o problema. Cada vez mais, os tutores sentem, de repente, um nódulo duro, do tamanho de uma ervilha, na cabeça, no pescoço ou nas pernas.

Quando olham com atenção, confirmam: é uma carraça grande, muito activa, muitas vezes já bem presa e profundamente fixada na pele. E isto acontece mesmo com a coleira anti-carraças recente e com o cão a ser tratado com regularidade.

"A opção clássica entre as coleiras anti-carraças dá uma sensação de segurança - mas, em muitos locais, a realidade já a ultrapassou há muito."

É comum a frustração e a dúvida: “Isto já não serve para nada?” ou “Passei anos a confiar na protecção errada?” A resposta é mais nuanceada: a protecção continua a funcionar - mas já não contra todas as carraças que, entretanto, circulam nas nossas latitudes.

Nova espécie em expansão: Hyalomma marginatum (carraça caçadora)

Um nome tem surgido com cada vez mais frequência na medicina veterinária: Hyalomma marginatum. Esta carraça tem-se expandido, nos últimos anos, de forma clara para norte, chegando a zonas onde antes não se esperava encontrá-la.

Em vários aspectos, difere das carraças “clássicas”, como a carraça-do-bosque:

  • É bastante maior e aparenta ter pernas mais compridas.
  • Não fica apenas à espera, de forma passiva, nas ervas; aproxima-se activamente do hospedeiro.
  • Consegue detectar as suas vítimas a vários metros de distância.
  • Tem origem em regiões mais quentes e secas.

Com invernos mais amenos e períodos quentes mais longos, a Hyalomma marginatum sente-se, hoje, confortável também em áreas mais a norte. Para quem tem cães, isto significa que até regiões antes vistas como “relativamente seguras” podem passar a ter carraças grandes e mais “caçadoras”.

Porque é que muitas coleiras anti-carraças já não chegam

Permetrina - anos de eficácia, agora perto do limite

Uma grande parte das coleiras anti-carraças para cães utiliza o princípio activo permetrina. A substância vai sendo libertada gradualmente pela coleira para a pele e para o pelo, com o objectivo de repelir ou eliminar as carraças antes de elas se fixarem.

O problema é que, em numerosos casos, a Hyalomma marginatum demonstra uma resistência marcada a este princípio activo. Em termos simples: esta carraça tolera o contacto com a permetrina muito melhor do que espécies “domésticas” mais comuns. Resultado: chega ao cão, desloca-se pelo pelo e pela pele e pode fixar-se - mesmo com coleira.

Tipo de protecção Onde actua Ponto fraco
Coleira com permetrina Superfície do pelo e da pele Carraças resistentes; eficácia diminui com muita água ou fricção
Comprimido sistémico (isoxazolina) Actua via sangue em todo o corpo O cão tem de tolerar o comprimido; apenas disponível através do veterinário

E é aqui que se cria uma armadilha: o tutor confia no produto de sempre - e passa a inspeccionar o animal com menos rigor.

Rotinas desactualizadas e a perigosa falsa sensação de segurança

O maior risco, muitas vezes, não é “aquela” carraça específica, mas sim a ilusão de segurança. Quem acredita que “com coleira está garantido” tende a cair nestes erros:

  • As verificações após os passeios tornam-se raras ou demasiado superficiais.
  • Zonas como axilas, virilhas, abdómen ou entre os dedos deixam de ser inspeccionadas.
  • Sinais vagos, como cansaço ou falta de apetite após uma picada, são desvalorizados.

Assim, aumenta a probabilidade de não se detectar a tempo a transmissão de agentes patogénicos. Entre as doenças que carraças podem transmitir na Europa (dependendo da espécie) estão a babesiose, anaplasmose, borreliose e rickettsioses. Nem todas as carraças Hyalomma transportam, necessariamente, agentes infecciosos, mas o seu comportamento mais agressivo eleva claramente o risco de picadas.

A resposta actual: protecção contra carraças a partir de dentro, não só por fora

Comprimidos de isoxazolina: protecção sistémica através do sangue

Cada vez mais, os veterinários recorrem, em cães, a outra família de princípios activos: as isoxazolinas. Existem sob a forma de comprimidos mastigáveis, normalmente administrados uma vez a cada quatro a doze semanas - o intervalo exacto depende do produto.

O mecanismo é substancialmente diferente do de uma coleira:

  • O comprimido é absorvido pelo tracto gastrointestinal.
  • O princípio activo distribui-se pelo organismo através do sangue.
  • Ao morder, a carraça ingere o princípio activo na refeição de sangue.
  • A carraça morre pouco tempo depois, normalmente antes de conseguir transmitir agentes patogénicos.

"Em vez de levantar uma barreira química à volta do pelo, o cão inteiro passa a ser uma zona “interdita” para carraças."

Há ainda um benefício prático importante: banhos, chuva, brincadeiras no lago ou escovagens frequentes não reduzem o efeito do comprimido. A protecção mantém-se estável enquanto o princípio activo estiver a circular no sangue.

Mesmo assim, a verificação continua a ser indispensável

Quem pensa: “Óptimo, dou o comprimido e está resolvido” - está enganado. Nenhum produto oferece uma garantia de 100%, e alguns cães podem ser sensíveis a determinados princípios activos. Por isso, a conversa com a clínica veterinária faz sempre parte do processo.

Um plano realmente sólido assenta em duas bases:

  • Um produto ajustado ao peso, ao estado de saúde e ao estilo de vida do cão (por exemplo, comprimidos de isoxazolina).
  • Inspecções manuais consistentes do pelo, sobretudo após passeios em erva alta, mato ou floresta.

Na prática: depois de cada saída, “apertar” e apalpar o cão com os dedos, idealmente contra o sentido do pelo. Cabeça, orelhas, pescoço, peito, axilas, abdómen, faces interna e externa das pernas e a base da cauda estão entre as zonas preferidas das carraças.

O que os tutores devem mudar a partir de agora

Novos hábitos para os percursos de sempre (cão, carraças e Hyalomma marginatum)

Quem passeia frequentemente por zonas de mata, prados ou terrenos incultos deve actualizar a rotina às condições actuais. Isso inclui:

  • Conversa na clínica veterinária: qual o produto mais adequado, existem doenças prévias, quanto tempo dura o efeito?
  • Actualização da “farmácia” de casa: coleiras anti-carraças antigas e pouco eficazes devem ser descartadas, em vez de “ainda se gastar o que resta”.
  • Cuidado com o jardim: cortar regularmente ervas altas e vegetação densa junto a caminhos ou à beira de terraços.
  • Ritual pós-passeio: a verificação rápida do pelo torna-se parte do dia-a-dia, tal como encher a taça ou limpar as patas.

Quem tem crianças pode envolvê-las de forma lúdica: “brincar aos detectives de carraças” diverte muitos e, ao mesmo tempo, aumenta a probabilidade de encontrar cedo estes parasitas.

Perguntas típicas que surgem na prática

Muitos tutores colocam repetidamente dúvidas semelhantes, por exemplo:

  • “O meu cão já usa coleira, devo mudar na mesma?” Se na sua zona aparecem com maior frequência carraças grandes e rápidas, ou se continua a encontrar carraças apesar da coleira, faz sentido considerar a mudança para um sistema mais moderno, após aconselhamento veterinário.
  • “Não chega remover as carraças sempre que as vejo?” Quanto menor for o tempo de sucção, menor tende a ser o risco de transmissão. Contudo, em espécies activas como a Hyalomma, a janela de tempo pode ser muito curta. Retirar carraças continua a ser um elemento importante, mas não substitui a protecção medicamentosa.
  • “Isto não é química a mais?” Qualquer tratamento é uma intervenção; por outro lado, carraças podem desencadear doenças graves. A decisão deve ser sempre individual, com o veterinário, ponderando o risco das carraças face ao possível risco de efeitos adversos do produto.

Porque a protecção contra carraças exige hoje mais atenção do que antes

Alterações climáticas, deslocações e novos agentes patogénicos

O estabelecimento, entre nós, de espécies como a Hyalomma marginatum não acontece por acaso. Invernos menos rigorosos, longos períodos de calor e uma mobilidade crescente de pessoas (e animais) facilitam a chegada de carraças e dos seus agentes a novas regiões. Aves migratórias podem transportar larvas ou ninfas; cães podem regressar de férias com parasitas “importados”.

Recomendações veterinárias que eram plenamente suficientes há dez ou quinze anos podem já não ser adequadas hoje. Quem mantém a rotina antiga sem a questionar pode, sem se aperceber, aumentar o risco.

Ao mesmo tempo, há uma oportunidade real: com produtos mais actuais e uma utilização mais consciente das áreas naturais, os cães podem continuar a correr no campo, a brincar na floresta e a nadar no lago - mas com um plano de protecção ajustado a 2026, e não a 2005.

Ao repensar agora a protecção contra carraças do seu cão, evita-se não só o susto ao fazer festas depois do passeio. Reduz-se também o risco de idas dolorosas ao veterinário - e garante-se que a próxima volta pela mata volta a ser aquilo que deve ser: um passeio tranquilo para humanos e animais.

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