Saltar para o conteúdo

Investigadores alertam: aumento do risco de AVC no início de abril.

Homem com expressão preocupada sentado à mesa com comprimidos e café enquanto mulher usa telemóvel ao lado.

Os dias alongam-se, a luz volta e o ânimo melhora - e, ainda assim, é precisamente nessa altura que algumas pessoas são apanhadas de forma particularmente dura. Uma equipa de investigação finlandesa analisou dados ao longo de dez anos e chegou a uma conclusão clara: logo após a mudança de hora para a hora de verão, observa-se um aumento de AVC (acidentes vasculares cerebrais). Os primeiros dias de abril revelam-se especialmente delicados.

O que a mudança para a hora de verão faz ao cérebro e ao risco de AVC

Na noite em que os relógios avançam para a hora de verão, “perdemos” oficialmente apenas uma hora de sono. No organismo, porém, o impacto pode ser bem maior. O nosso relógio biológico - o chamado ritmo circadiano - desajusta-se. Hormonas, tensão arterial, fases do sono e o tónus dos vasos sanguíneos reagem com sensibilidade a este mini jet lag.

Há muito que se sabe que esta interferência no ritmo diário pode influenciar doenças cardiovasculares. O estudo finlandês foi mais longe: procurou perceber de forma específica se, após a passagem para a hora de verão, o número de AVC também se altera - e, em caso afirmativo, em que pessoas o risco sobe de forma mais marcada.

"Os dados mostram: nos primeiros dias após a mudança para a hora de verão, há mais AVC - sobretudo em pessoas mais velhas e já doentes."

O estudo: dez anos de dados de AVC colocados lado a lado

Os investigadores analisaram registos hospitalares na Finlândia durante um período de dez anos. O foco incidiu sobre mais de 3.000 doentes que deram entrada com AVC no espaço de uma semana depois da mudança para a hora de verão.

Este grupo foi comparado com mais de 11.000 pessoas com AVC internadas na mesma época do ano, mas duas semanas antes ou duas semanas depois da mudança de hora. Assim, foi possível testar se a concentração de casos estava realmente associada à alteração do relógio - e não apenas à estação do ano.

  • A equipa avaliou sobretudo AVC isquémicos, isto é, os que são desencadeados por um coágulo que bloqueia o fluxo sanguíneo no cérebro.
  • Foi analisado em que dia, após a mudança de hora, os episódios ocorriam.
  • Foram identificados os grupos de doentes mais afetados.

Risco acrescido nos dois primeiros dias

Ao observar os números, surgiu um padrão nítido. O aumento não se distribuía de forma uniforme ao longo da semana; concentrava-se acima de tudo nos dois primeiros dias após a mudança de hora. Traduzido para a mudança atual, isso significa: a segunda-feira e a terça-feira imediatamente a seguir à passagem para a hora de verão são os dias considerados mais arriscados.

Além disso, a mudança de hora pareceu deslocar o momento do AVC ao longo do dia. Como o ritmo interno fica “atrasado”, a tensão arterial e o sistema circulatório reagem a horas diferentes das habituais - o que pode ter consequências para o cérebro.

"As horas críticas deslocam-se: o mini jet lag provocado pela mudança do relógio parece empurrar o início de alguns AVC para mais tarde no dia."

Quem está mais em risco

A análise indica que o aumento do risco não é igual para toda a gente. Dois grupos destacaram-se de forma particular:

  • Doentes oncológicos apresentaram, após a mudança de hora, um risco de AVC cerca de um quarto superior.
  • Pessoas com mais de 65 anos mostraram um aumento de risco na ordem dos 20 por cento.

Nestes casos, o sistema vascular está muitas vezes já fragilizado e o corpo encontra-se mais sobrecarregado. Um fator adicional de stress, como sono perturbado, pode ser o suficiente para desencadear o problema. Em pessoas jovens e saudáveis, a mudança de hora também representa stress, mas o organismo tende a compensar melhor.

Grupo de risco Alteração do risco de AVC após o início da hora de verão
Doentes oncológicos ca. +25 %
Pessoas com mais de 65 anos ca. +20 %
Adultos saudáveis com menos de 65 ligeiramente aumentado, mas menos acentuado

Ainda assim, o estudo trouxe uma nota positiva: apesar dos casos adicionais, a mortalidade no hospital não aumentou. Os resultados do tratamento mantiveram-se estáveis - provavelmente porque os AVC são cada vez mais reconhecidos mais cedo e os hospitais dispõem de circuitos e procedimentos padronizados.

Reconhecer sinais de alerta: sintomas que não devem ser ignorados

Qualquer AVC é uma emergência. Cada minuto em que uma zona do cérebro não recebe sangue suficiente destrói neurónios. Quem desvaloriza sinais iniciais perde tempo precioso - e, com isso, oportunidades de ter a melhor recuperação possível.

Os sinais de alarme mais típicos incluem:

  • Fraqueza súbita ou dormência na face, num braço ou numa perna - muitas vezes apenas de um lado do corpo.
  • Alterações da visão: visão turva, perda de metade do campo visual, perda temporária de visão num olho ou visão dupla.
  • Dificuldades na fala ou na linguagem: fala arrastada, incapacidade de formar palavras ou dificuldade em compreender os outros.
  • Alterações da sensibilidade: toque, calor ou dor deixam de ser percecionados corretamente.
  • Dor de cabeça intensa e invulgar sem causa aparente, frequentemente acompanhada de náuseas.
  • Tonturas, instabilidade ao andar, quedas súbitas ou movimentos descoordenados.
  • Alterações do estado de consciência - desde sonolência marcada até coma.

"Quem notar um destes sinais deve ligar de imediato para o 112 - sem esperar, sem “ver se passa”."

O que qualquer pessoa pode fazer na semana após a mudança de hora

Ninguém consegue reduzir o risco de AVC a zero. No entanto, em torno da mudança para a hora de verão existem algumas medidas que ajudam a aliviar o organismo - sobretudo nos primeiros dias do início de abril.

Ajustar sono e rotina diária

  • Deitar-se mais cedo durante uma a duas noites antes, para antecipar parcialmente a hora perdida.
  • Reduzir a luz azul ao fim do dia: menos telemóvel, tablet e televisão na última hora antes de dormir.
  • Apanhar luz natural de manhã, idealmente ao ar livre: ajuda a estabilizar o relógio biológico.
  • Limitar a sesta (no máximo 20–30 minutos), para não prejudicar o sono noturno.

Vigiar tensão arterial e doenças pré-existentes

Para quem tem doenças prévias, os dias após a mudança de hora podem ser uma fase particularmente sensível. Pessoas com hipertensão, arritmias, diabetes ou doença oncológica devem estar mais atentas.

  • Medir a tensão arterial em casa, sobretudo se os valores costumam ser limítrofes.
  • Tomar a medicação prescrita de forma regular e sempre à mesma hora.
  • Evitar álcool e refeições muito tardias e pesadas, porque ambos podem sobrecarregar ainda mais o sistema circulatório.

Se surgirem sintomas novos de forma súbita - por exemplo, fraqueza de um lado do corpo, dor de cabeça intensa ou dificuldades na fala - não vale a pena esperar por uma consulta: é essencial chamar de imediato os serviços de emergência.

Porque é que uma hora pode causar tanto stress

Há quem quase não sinta a mudança de hora e há quem durma mal durante dias. A explicação está na combinação de vários fatores: a luz regula a libertação de hormonas como a melatonina e o cortisol, que controlam o sono e a vigília. Quando o relógio muda, a luz ambiente deixa de coincidir com o ritmo interno a que o corpo está habituado.

Em geral, o organismo precisa de alguns dias para voltar a equilibrar-se. Nesse período podem ocorrer picos de tensão arterial, maior predisposição para inflamação e constrição dos vasos - processos que podem favorecer um AVC quando já existe lesão prévia do sistema vascular.

Como reduzir o risco pessoal de AVC a longo prazo

A mudança de hora não afeta todas as pessoas da mesma forma. Quem já tem um risco aumentado pode atuar, a longo prazo, em vários pontos. Entre as medidas mais eficazes estão:

  • Deixar de fumar - a nicotina danifica os vasos e favorece a formação de coágulos.
  • Praticar atividade física regular - ideais são caminhadas a bom ritmo, bicicleta ou natação.
  • Perder peso em caso de obesidade marcada.
  • Alimentação com menos sal e mais baseada em plantas, com muitos vegetais e cereais integrais.
  • Tratamento consistente da hipertensão, da diabetes e das arritmias.

Ao trabalhar estes aspetos, não só se reduz o risco de AVC nos dias críticos do início de abril, como também ao longo de todo o ano. A passagem para a hora de verão continua a ser um fator de perturbação, mas pesa menos quando o organismo está globalmente mais resiliente.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário